O que saber sobre cetose

A cetose foi identificada pelo Dr. Alfred Bauer em 1962 e é um estágio no catabolismo que ocorre quando o fígado converte gorduras em ácidos graxos e corpos cetônicos, que podem ser usados pelo corpo para energia.

Em circunstâncias normais, as células do corpo usam glicose como fonte principal de energia. A glicose é tipicamente obtida de carboidratos da dieta incluindo açúcar (de frutas, leite ou iogurte) e amido (de pães e massas).

O corpo divide esses alimentos em açúcares simples. A glicose então pode ser usada para alimentar o corpo ou ser armazenada no fígado e nos músculos como glicogênio. Se não houver glicose suficiente disponível para atender às demandas de energia, o corpo adotará uma estratégia alternativa para atender a essas necessidades, a cetose.

O corpo então começa a quebrar as reservas de gordura para fornecer glicose a partir dos triglicerídeos. Isso resulta em um acúmulo de ácidos no corpo chamados cetonas. As cetonas se acumulam no sangue e são eliminadas na urina.

Em pequenas quantidades, elas servem para indicar que o corpo está quebrando a gordura, mas altos níveis de cetonas podem envenenar o corpo, levando a um processo chamado cetoacidose.

A cetose geralmente não ocorre em indivíduos saudáveis que tem dietas equilibradas e refeições regulares. Reduzir drasticamente a quantidade de calorias e carboidratos consumidos, exercitar-se por longos períodos ou engravidar, pode desencadear cetose.

Quando o corpo passa a utilizar gordura em vez dos carboidratos, como fonte energia, há maior eficiência na perda de gordura corporal.

Afinal, o que são cetonas?

Cetonas são moléculas solúveis em água que o fígado produz na ausência da glicose. Existem 3 tipos de corpos cetônicos:

  • Acetoacetato
  • Beta-hydroxibutirato
  • Acetona

Tecnicamente o beta-hidroxibutirado (BHB) não é uma cetona, mas para propósitos práticos é considerado um tipo de corpo cetônico, sendo uma das principais fontes de energia na dieta cetogênica, por ser capaz de “alimentar” o cérebro. Apesar de não ser uma acetona, o BHB pode se converter em acetona, que depois é excretada através da respiração.

O objetivo das cetonas é fornecer ao corpo uma fonte alternativa de combustível. Em uma dieta padrão de alto carboidrato, o corpo funciona principalmente em glicose. Mas quando o corpo está faminto de carboidratos (como quando você está em uma dieta cetogênica), ele passa queimar gordura, transformando uma porção dela em cetonas.

A maioria das células do corpo pode usar gordura para energia, mas o cérebro não pode. O cérebro precisa de cetonas para sobreviver quando a glicose está acabando, e esta é uma das razões pelas quais as cetonas existem. Outra razão é porque os ácidos graxos de cadeia longa não podem atravessar a barreira hematoencefálica.

Dieta cetogênica

A dieta cetogênica é uma dieta muito low-carb (VLCD) semelhante à Atkins. Tem crescido em popularidade nos últimos dois anos, principalmente como uma dieta de perda de peso; no entanto, a cetogênica existe há muito mais tempo e não foi originalmente concebida como uma dieta de perda de peso.

A história da dieta cetogênica começa na década de 1920, quando os pesquisadores a introduziram como um tratamento de epilepsia. Eles notaram que a redução de carboidratos leva aos mesmos benefícios metabólicos do jejum, uma cura para epilepsia ao longo da idade.

A dieta cetogênica é rica em gordura, pois o corpo utiliza a gordura e não a glicose do carboidrato com fonte de energia. Veja como um indivíduo obtém energia em uma dieta cetogênica:

  • 75% da gordura
  • 20% da proteína
  • 5% do carboidrato

Alguns nutricionistas recomendam a dieta cetogênica para indivíduos com diabetes tipo 2, também conhecida como diabetes não dependente de insulina. Na diabetes tipo 2, o corpo ainda produz insulina, mas é incapaz de usá-la adequadamente para transportar glicose para dentro das células e usá-la como combustível.

Pacientes com diabetes que seguem uma dieta cetogênica precisam monitorar cuidadosamente seus níveis de cetona para não entrar num estado de cetoacidose. Embora seja mais prevalente em indivíduos com diabetes tipo 1, pessoas com diabetes tipo 2 também podem desenvolver esta condição.

A ciência tem fortes evidências dos benefícios da dieta cetogência para as seguintes condições:

  • Epilepsia
  • Diabetes mellitus
  • Perda de peso
  • Síndrome dos ovários policísticos
  • Síndrome da bexiga irritável
  • Refluxo gastroesofágico e azia
  • Esteatose hepática não alcoólica

Boas evidências da dieta cetogênica para:

  • Alzheimer
  • Parkinson
  • Demência
  • Esquizofrenia, transtorno bipolar e outras doenças mentais
  • Narcolepsia e outros distúrbios do sono
  • Performance esportiva

Evidências ainda inconclusivas dos benefícios da dieta cetogênica para:

  • Câncer
  • Fibromialgia
  • Dor crônica
  • Enxaqueca
  • Traumatismo crânio encefálico
  • Avc
  • Gengivite e cárie
  • Acne
  • Problemas de visão
  • Esclerose lateral amiotrófica
  • Esclerose múltipla e doença de huntington
  • Envelhecimento
  • Doenças renais
  • Síndrome da perna inquieta
  • Artrite
  • Alopecia e queda de cabelo
  • Síndrome da deficiência do glut1

As pessoas seguem a dieta cetogênica por causa de seus muitos benefícios apoiados pela ciência, sendo a perda de peso o mais proeminente. Pesquisas mostram que as pessoas perdem mais peso após 3 meses na dieta cetogênica do que em uma dieta com baixo teor de gordura.

Quando se fala da dieta cetogênica, o que a maioria das pessoas está se referindo é uma abordagem "padrão" que envolve a seguinte proporção de macros:

  • 5-10% de carboidratos
  • 10-20% de proteína
  • 70-80% de gordura

Além das proporções acima, comer 20-50g de carboidratos por dia faz parte da abordagem padrão cetogênica. Essa abordagem funciona melhor se você estiver comendo 2.000-2.500 calorias por dia, for moderadamente ativo e estiver em relativamente boa saúde. No entanto, se você tem requisitos especiais de nutrição, então você pode querer considerar outros tipos de dieta cetogênicas.

Tipos de dietas cetogênicas

Dieta cetogênica focada

A dieta cetogênica focada é a melhor opção para o atleta ou frequentador de academia. Esta versão envolve consumir carboidratos em torno de exercícios, imediatamente antes ou imediatamente depois. Os limites do carboidrato ainda devem ser baixos, entre 20-50g por dia. O objetivo da dieta cetogênicia focada é alimentar seus treinos e repor glicogênio muscular para recuperação rápida enquanto ainda ajuda a ficar na cetose.

Dieta Cetogênica Cíclica

A dieta cetogência cíclica é outra dieta amigável ao atleta. Atletas profissionais acham que precisam de um impulso de carboidratos para seus treinamentos. Em uma dieta cetogênica cíclica, você seguiria uma dieta cetogênica padrão por 5 dias e carboidratos por dois dias durante o treinamento ou dois dias antes de uma competição. Essa abordagem ajuda a restaurar o glicogênio muscular e a construir músculo.

Dieta Atkins Modificada

A dieta Atkins modificada restringe os carboidratos a 10 g/dia em crianças e 15 g/dia em adultos. Foi originalmente desenvolvida como uma dieta cetogênica menos restritiva para crianças com epilepsia. Nesta dieta não há restrição calorias e as gorduras não são medidas. O que a torna diferente de uma dieta padrão de cetogênica é que permite mais proteína (35% da ingestão diária de calorias).

Dieta cetogênica terapêutica

A dieta cetogênica terapêutica é restrita a 25g de carbiodrato por dia (ou às vezes menos) e proteína restrita ao mínimo necessário para reparação muscular.

As pessoas que tentam retardar ou reverter o crescimento ou parar as convulsões também recorrem a medidas mais agressivas, incluindo o complemento com maiores quantidades de manteiga, óleo de coco, óleos de MCT e sais de cetona para levar suas cetonas a níveis mais altos (entre 1,5 a 3,0mmol/L).

Cetoacidose

Cetoacidose muitas vezes é confundida com cetose, por isso algumas pessoas acabam tendo receio de fazer a dieta cetogênica por medo de entrar em cetoacidose. É importante saber que a cetoacidose é uma condição na qual os níveis de cetona estão extremamente altos, o que não acontece numa pessoa saudável com estilo de vida cetogênico.

Existem vários gatilhos potenciais diferentes para a cetoacidose. Ela é mais comumente causada por doenças que levam à produção de níveis mais altos de hormônios que atuam contra a insulina. Também pode resultar de problemas com a insulinoterapia, seja por falta de tratamentos programados ou por não receber insulina suficiente.

Os gatilhos menos comuns da cetoacidose incluem:

  • Abuso de drogas
  • Trauma emocional
  • Trauma físico
  • Estresse
  • Cirurgia

Em pacientes com diabetes, a cetoacidose pode ocorrer nas seguintes situações:

  • Omissão do tratamento com insulina ou remédios.
  • Mau funcionamento da bomba de insulina.
  • Doenças agudas: infecções (urinária, pulmonar, gripe), infarto do miocárdio, hemorragia digestiva, entre outras.
  • Distúrbios endócrinos: feocromocitoma, hipertireoidismo, acromegalia.
  • Drogas (corticóides, agonistas adrenérgicos, fenitoína, beta-bloqueadores, antipsicóticos, álcool, cocaína).
  • Desidratação: ingestão deficiente de água, diarreia, sauna; ingestão excessiva de refrigerantes ou líquidos açucarados.

A cetoacidose diabética é considerada uma emergência, pois pode levar ao coma diabético e até à morte. O tratamento é geralmente administrado por profissionais de saúde de emergência, seguido de hospitalização em uma unidade de terapia intensiva. Os sintomas da cetoacidose incluem:

  • Excesso de urina
  • Sede excessiva
  • Fraqueza
  • Náuseas
  • Vômitos
  • Taquicardia
  • Sonolência
  • Confusão
  • Coma em 10% dos casos
  • Respiração ofegante
  • Desidratação
  • Pressão baixa
  • Febre ou temperatura baixa
  • Hálito cetônico (parece fruta podre)
  • Dor ou sensibilidade abdominal

Para pacientes diabéticos, as seguintes medidas são comumente tomadas:

  • Reposição de líquidos para reidratar o corpo e diluir o excesso de açúcar no sangue.
  • Reposição de eletrólitos para manter o coração, músculos e células nervosas funcionando corretamente.
  • Terapia com insulina para reverter os processos que causaram o episódio de cetoacidose.

Assim como a mensuração da glicemia (nível de glicose no sangue), os níveis de cetose podem ser medidos em casa. Veja o que pessoas com diabetes podem fazer para prevenir a cetoacidose:

  • Monitorar os níveis de açúcar no sangue com cuidado e frequência - pelo menos três a quatro vezes por dia.
  • Discutir a dosagem de insulina com um especialista e seguir o plano de tratamento indicado.
  • Monitorar os níveis de cetona, principalmente quando estiver doente ou sob estresse.

Como monitorar os níveis de cetona

As cetonas podem ser medidas de três formas:

  • Urina
  • Sangue
  • Respiração

Medir os níveis de cetona na urina não faz sentido para pessoas saudáveis em dieta cetogênica porque o corpo se adapta à cetose, ou seja, as cetonas são usadas para a produção de energia de maneira eficiente, não sendo liberadas pela urina.

Enquanto cetose é um estado metabólico caracterizado por níveis elevados de corpos cetônicos, a ceto-adaptação é quando seu corpo é capaz de usar essas cetonas para energia. Mais especificamente, a adaptação cetogênica ocorre quando suas cetonas começam a abastecer seu cérebro e ácidos graxos começam a alimentar seus músculos.

No entanto, a mensuração das cetonas na urina é um método válido para os diabéticos prevenirem a cetoacidose e para os iniciantes na dieta cetogênica verificarem se seus níveis de cetona estão subindo.

Medir os níveis de cetona no sangue ou na respiração é mais preciso do que medi-los na urina. Os testes de sangue detectam o beta-hidroxibutirato, o ácido mais metabolicamente ativo das cetonas. Na respiração, em alguns casos, mesmo a acetona que não é proveniente do BHB pode acabar sendo excretada, o que atrapalha uma correta medição da cetose por esse marcador.

Uma maneira simples de detectar cetona na respiração é cheirando o ar expirado. Um dos subprodutos do BHB é um composto altamente volátil que exala um cheiro de esmalte que alguns também descrevem como "frutado". Se você está percebendo um mau cheiro frutado ultimamente, pode ser sinal de cetose.

Medir os níveis de cetona do sangue pode não ser muito confortável, mas é o mais preciso. Os kits de medição de cetose são muito fáceis de usar em casa. Eles são compostos por um aparelho, fitas específicas para medir cetonas e agulhas para furar o dedo.

O medidor Freestyle Optium b-ketone por exemplo, mede tanto a glicose quanto as cetonas, dependendo da fita que você comprar. É preciso encaixar a fita de cetona no aparelho, furar o dedo e colocar uma gota de sangue na fita suficiente para ela ficar completamente preenchida. Então o aparelho mostra o resultado na tela, que pode ser interpretado da seguinte maneira:

  • Abaixo de 0.5 mmol/L – normal
  • Entre 0,5 mmol/L e 1.0 mmol/L - cetose nutricional leve (emagrecimento):
  • Entre 1,0 mmol/L e 3,0 mmol/L - cetose ótima (benefícios cognitivos e performance física)
  • Maior que 3 mmol/L – nível alto de cetona
  • Maior que 5 mmol/L – nível perigosamente alto e indicativo de cetoacidose

Certifique-se de testar cetonas no início da manhã ou várias horas depois de uma refeição. Isso fornecerá os resultados mais precisos. Além disso, tenha em mente que os níveis de hidratação podem afetar seus resultados. Pesquisadores descobriram que pessoas com problemas renais podem não obter resultados precisos.

https://www.diabetes.org.br/publico/complicacoes/cetoacidose-diabetica

https://www.kissmyketo.com/blogs/keto-basics/measuring-ketosis-a-quick-guide-to-ketone-strips

https://optimisingnutrition.com/2015/07/13/the-theraputic-ketogenic-diet/